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Há 3000 anos

Cientistas encontram ferramentas feitas por macacos há 3.000 anos no Piauí

A conclusão saiu de uma escavação arqueológica no Parque Nacional da Pedra Furada, em São Raimundo Nonato (PI), cujos resultados foram publicados nesta segunda-feira (24) na revista científica Nature Ecology and Evolution.

26/06/2019 15h42
Por: Direto da Redação
 

Uma comunidade de macacos-prego no Piauí faz uso de ferramentas para quebrar castanhas e sementes há pelo menos 3 mil anos e adaptou sua técnica a diferentes alimentos ao longo do tempo. A descoberta ajuda a entender como uma inteligência similar à de ancestrais dos humanos evoluiu de maneira independente no Brasil pré-histórico.

A conclusão saiu de uma escavação arqueológica no Parque Nacional da Pedra Furada, em São Raimundo Nonato (PI), cujos resultados foram publicados nesta segunda-feira (24) na revista científica Nature Ecology and Evolution.

Os autores, um grupo interdisciplinar que reuniu biólogos, psicólogos e arqueólogos, descrevem como os macacos vêm aprendendo uns com os outros como usar rochas para processar alimentos.

A técnica em questão requer duas pedras, uma para apoiar o alimento a ser processado – a “bigorna” – e outra para golpeá-lo – o “martelo”. Os cientistas que estudam a região há mais de duas décadas já sabiam que os macacos-prego que vivem lá usam pedras de tamanhos diferentes dependendo do alimento a ser processado. O cardápio atual da região inclui alimentos como castanhas de caju, sementes de maniçoba, grão-de-galo e jatobá. Enquanto a castanha de caju é mais fácil de abrir com pedras pequenas, os outros alimentos costumam exigir pedras maiores.

Ao analisar os registros arqueológicos deixados pelos macacos ao longo de 450 gerações, os cientistas viram que, há três milênios, as pedras pequenas eram as preferidas dos símios. Cerca de 2,5 mil anos atrás, porém, os animais começaram a usar pedras maiores e, recentemente, uns cem anos atrás, voltaram a usar as pedras menores. Essa variação, que sinaliza uma possível necessidade de adaptação ao ambiente e ao tipo de alimento mais abundante, é típica da arqueologia de ferramentas humanas.

— É a primeira vez que se conseguiu identificar isso num sítio arqueológico não humano —afirma Tiago Falótico, primatólogo da Universidade de São Paulo (USP) e autor principal do estudo. — Existem sítios com ferramentas de chimpanzés datadas de 4 mil anos na África, mas, nesse caso, são 4 mil anos fazendo a mesma coisa.

Para garantir que as pedras encontradas na escavação na Serra da Capivara foram usadas por símios, os arqueólogos se certificaram que aquela área não tinha sido habitadas por humanos antes – que deixam sinais como cacos de cerâmica e restos de fogueira. Descartada essa hipótese, o registro arqueológico só podia ser dos símios. Pedras usadas por humanos, além disso, costumam ser bem maiores do que os seixos de até 3 centímetros usados pelos macacos.

O caso dos macacos-pregos despertou tanto interesse entre cientistas que estudam a evolução humana que arqueólogos com experiência em trabalhar no leste da África – o “berço da humanidade”– estão indo agora para o Piauí para estudar os primatas do Novo Mundo. É o caso de Tomos Proffitt, do University College de Londres, e Richard Staff, do Centro de Pesquisas Ambientais das Universidades Escocesas, que assinam o novo estudo junto com Falótico. O grupo inclui também um psicólogo, Eduardo Ottoni, da USP, pioneiro no estudo da inteligência dos macacos-pregos.

Um dos fatos que mais intrigam os pesquisadores dedicados a essa questão é que esses pequenos primatas sul-americanos têm uma distância evolutiva de cerca de 40 milhões de anos para os outros grandes macacos – chimpanzés, orangotangos e gorilas. É improvável que o ancestral comum entre macacos-pregos e os grandes macacos (que é o mesmo ancestral que humanos têm em comum com os macacos-prego) tenha desenvolvido a capacidade de usar ferramentas há tanto tempo.

Os macacos-pregos, além de usar pedras para golpear nozes, usam varetas como ferramentas para colher mel de abelha ou para desentocar lagartos que querem comer. Por serem perecíveis, as varinhas não sobrevivem no registro arqueológico, mas nada indica que elas também não possam ter sido usadas durante todo esse tempo.

A sofisticação com a qual os macacos-prego usam ferramentas hoje, então, é um exemplo marcante de como a inteligência abstrata requerida para isso e a capacidade de transmissão cultural podem evoluir de maneira independente. Os pesquisadores já conseguem enxergar pontos em comum com a situação na qual os ancestrais dos humanos evoluíram no leste da África.

— O único gênero de primatas do Novo Mundo que usa ferramentas é o do macaco-prego, e ele pode ser estudado como um modelo mais independente para emergência do uso de ferramentas e tradições — explica Falótico, traçando um paralelo com o macaco-prego e os primatas ancestrais humanos. — Esses grupos que usam ferramentas são mais “terrestres”, ou seja, usam bastante o espaço do solo, habitam áreas mais secas, com características de savana, e têm à disposição pedras adequadas para fazer essas ferramentas.

Os cientistas pretendem agora aprofundar as escavações na Serra da Capivara e estudar as mudanças ecológicas antigas da região para entender melhor como esse pequenos notáveis macacos se relacionavam com o ambiente.

Fonte: gauchazh

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