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08/11/2018 ás 08h59 - atualizada em 08/11/2018 ás 11h05

Redação II

Barras / PI

Coco babaçu: empoderamento econômico sustentável
E é deste produto obtido através do extrativismo vegetal que mais de 400 mil pessoas, sobretudo mulheres, tiram o próprio sustento.
Coco babaçu: empoderamento econômico sustentável
Reprodução

O coco babaçu é uma riqueza inestimável para o meio-norte do Brasil. Da casca, do mesocarpo e do fruto é possível retirar uma variedade grande de produtos. E é deste produto obtido através do extrativismo vegetal que mais de 400 mil pessoas, sobretudo mulheres, tiram o próprio sustento.


Essas pessoas são representadas politicamente pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins (MIQCB). A entidade, que atua desde 1990, tem como objetivo garantir direitos e regularizar o acesso das quebradeiras aos territórios de extrativismo, condição sine qua non para o sustento das comunidades agroextrativistas.



 (Crédito: ASCOM)
(Crédito: ASCOM)



 


No Piauí, a sede do MIQCB está no meio da região de matas de cocais, em Esperantina. O setorial abrange 11 municípios e abraça cerca de 680 famílias. Com o Movimento, os trabalhadores têm a oportunidade de melhorar as condições de trabalho e de vida na região de coleta dos frutos.


Bem articuladas, elas possuem uma alta capacidade de manter a organização do MIQCB, que hoje possui aliados no meio acadêmico e no seio internacional, como a União Europeia, a Fundação Ford e a ActionAid. A unidade da luta é pela valorização da mulher quebradeira de coco, o aumento do capital social e o fortalecimento para evitar violência contra essas trabalhadoras.


Do fruto elas conseguem captar até 65 produtos, como a farinha do mesocarpo, azeite, óleo, sabão, artesanato e outros derivados das partes do produtor natural. A cadeia saudável também rende benefícios ao meio ambiente, pois essas trabalhadoras valorizam os drupáceos que oferecem as tão ricas sementes oleaginosas desta dicotiledônea tão fundamental para o ecótono desta macrorregião.



 (Crédito: ASCOM)
(Crédito: ASCOM)



 


Quem são as guerreiras das matas de cocais?


Você sabe quem são as guerreiras e guerreiros das matas de cocais? O Jornal Meio Norte foi ao Instituto de Terras do Piauí (Interpi), onde um grupo de dezenas de trabalhadores do babaçu estavam reunidos para pedir a regularização fundiária do espaço onde extraem o fruto.


Para Helena Gomes, coordenadora regional do MIQCB, “nosso trabalho é duro, difícil”. “O coco é duro, mas somos fortes e guerreiras. Porque além de quebrarmos o coco, também temos que quebrar correntes e barreiras da vida. Por tudo que temos direito. Sabemos que temos nossos direitos, mas temos que sair da mata para lutar para a terra e a liberdade do coco”, explica.



Helena Gomes, coordenadora regional do MIQCB (Crédito: Raíssa Morais)
Helena Gomes, coordenadora regional do MIQCB (Crédito: Raíssa Morais)



 


O coco é a principal fonte de renda das famílias. “Nós quebramos o coco e tiramos o azeite. Também tem outros produtos. Levamos para as feiras, mercado institucional e em todos os lugares que nos dão oportunidade. É um produto que aumentou muito a renda das mulheres, neste trabalho todo manual”, acrescenta Helena.


O MIQCB melhorou bastante a qualidade de vida das quebradeiras de coco do Piauí. “A associação tem 25 anos e antes éramos muito desinformadas. Por conta da prisão do coco, começamos a nos organizar como mulheres para fugir desse monopólio dos grandes produtores”, conta Helena Gomes. (L.A.)



 (Crédito: ASCOM)
(Crédito: ASCOM)



 


 


Guardiãs: matas crescem 38% com preservação


Além do empoderamento econômico, a defesa pelo direito de extrair o coco babaçu termina como uma grande empreitada a favor do meio ambiente. Com as quebradeiras de coco, as matas de babaçu cresceram em 38%.


É o que explica Ana Carolina Magalhães, coordenadora técnica do Movimento. “Elas fazem um trabalho excelente de preservação. Temos estudos que comprovam que aumentou de 18 para 25 milhões de hectares de floresta de babaçu. Isso é fruto do trabalho das comunidades tradicionais das quebradeiras de coco babaçu do Piauí”, explica.



Ana Carolina Magalhães, coordenadora técnica do Movimento. (Crédito: Raíssa Morais)
Ana Carolina Magalhães, coordenadora técnica do Movimento. (Crédito: Raíssa Morais)



 


O trabalho realizado por estas mulheres é valorizado até mesmo pelo mercado internacional. “Elas quebram o coco, fazem os profundos e comercializam até para o exterior. É uma luta atrelada ao cuidado com a natureza e a permanência delas nesses territórios”, completa Ana Carolina Magalhães.


No entanto, há mais lutas à vista, como explica Rafael Silva, advogado do MIQCB. “O movimento é articulado nos quatro estados das zonas de cocais, com maior número de quebradeiras. São 400 mil no Brasil e representamos nacionalmente o movimento. Temos uma atuação diversificada, como melhoria de qualidade de vida e beneficiamento do produto. Mas a maior luta é por territórios. Elas são guardiãs das florestas de cocais”, conta.



Advogado Rafael Silva diz que nunca houve segurança jurídica formal para garantir direitos quanto ao território. (Crédito: Raíssa Morais)
Advogado Rafael Silva diz que nunca houve segurança jurídica formal para garantir direitos quanto ao território. (Crédito: Raíssa Morais)



 


A principal luta é a questão da terra. “Estamos em uma luta fundiária por estas comunidades tradicionais que têm um vínculo histórico com os territórios. Contudo, nunca houve segurança jurídica formal para garantir esses direitos. Essa é uma realidade geral do país. Elas foram excluídas do acesso a terras desde a colonização onde a terra ficou para o agronegócio e a especulação”, enumera Rafael Silva.


“Do coco, tiramos nosso sustento”


 


Francisca Martins, também quebradeira de coco, defende as palmeiras com toda a força que tem. “Nós vamos no mato, o cacho está caindo, cutucamos com uma vara, a gente pega, junta em um pandeiro feito da palha do coco, leva, quebra… Às vezes, onde apanhamos os cocos é longe, então temos que levar o almoço e água”, conta a rotina.



Francisca Martins fala sobre o seu ofício (Crédito: Raíssa Morais)
Francisca Martins fala sobre o seu ofício (Crédito: Raíssa Morais)



 


O produto possui vários derivados. “Tiramos o azeite, a massa, as palmeiras, tudo, por isso, brigamos no meio ambiente para não devastarem os palmeirais. A palha que cobre nossa casa, as paredes, o caule da palmeira, tudo isso é nossa vida. Somos irmãs e amigas, e as palmeiras são nossas mães, porque é do coco que a gente tira nosso sustento. Também temos um trabalho de agricultura familiar”, revela Francisca.



Raimundo Alzira também é quebrador de coco (Crédito: Raíssa Morais)
Raimundo Alzira também é quebrador de coco (Crédito: Raíssa Morais)



 


Mas você sabia que existem quebradores de coco? Sim, os homens também são importantes nesse processo. “Eu nasci em 1965 e minha mãe nos criou quebrando coco. Da criação dela, fui aprendendo também. Hoje tenho 53 anos, sou casado, e meus filhos foram criados também quebrando coco. Estamos aqui buscando nossos direitos, não importa se somos homens ou mulheres”, relata Raimundo Alzira, quebrador de coco. (L.A.)


Conquistas e lutas de homens e mulheres


Em 2009, por meio do desenvolvimento de capacidades, lideranças e empreendedorismo entre as mulheres, criou-se a Cooperativa Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB). Assim foi possível criar um mercado solidário que exporta produtos até para grandes empresas de cosméticos.


Essas mulheres lutadoras fizeram história no município de Miguel Alves, há 120 km de Teresina. Foi aprovada em uma plenária com mais de 200 pessoas e presenças institucionais da Defensoria Pública Estadual e Federal, e da Comissão de Direitos Humanos da OAB/PI a aprovação do texto de lei Babaçu Livre para o município. O projeto de lei é uma iniciativa popular, coordenado pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins (MIQCB). A atividade teve apoio também do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miguel Alves e da Comissão Pastoral do Terra no Piauí. (L.A.)


 

 

FONTE: meio norte

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