Quarta, 17 de outubro de 2018
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Cultura

29/05/2018 ás 12h05

Redação II

Barras / PI

Exclusivo: Capítulos inéditos do novo romance " Sepulturas do Tempo" de Joaquim Neto Ferreira
Um romance em que as temáticas remontam para uma Barras do passado em que o principal antagonista é o próprio povo que não conserva seu patrimônio.
Exclusivo: Capítulos inéditos do novo romance
Romance terra de marataoan

Festim Diabólico capítulo I


Precisava saber o porquê da derrubada da igreja de nossa senhora da Conceição. Padre Lindolfo tinha que explicar uma saída para a entaladela que se metera. Genésio gostava de missa, gostava, gostava... até demais, mas era só para se encontrar com Helena.


E que amante melhor do que ela poderia encontrar?


Uma senhora casada sob o céu da religião, da santidade dos sete pecados capitais. Casar, Genésio não podia casar com ela, pois Helena casara na igreja antes da derrubada.


- Como a igreja era bonita? Falara Raimundinho do João Tomaz, o homem que mudara Barras. 


Assim que encontrara Genésio na praça da matriz, interpelou-o com uma ofensiva de ataque direto. É um crime derrubar a igreja matriz pelo fato de uma das torres está em ruínas! 


Genésio não dissera nada. Absolutamente em silêncio como os túmulos do cemitério da Confraria. Tratara de sair pela tangente. Tinha pressa. No íntimo da mente, a resposta para a indagação. 


...Não são as famílias elitistas e o padre, autor e co-autor do crime contra o patrimônio cultural da cidade?


Vira Helena que passou tão rapidamente. Vinha avexada do sobrado do coronel Fabriciano. Era bonita, bem feita de corpo, inteligente, não era assanhada como as irmãs do Sagrado coração de Maria, as solteironas Bernadete e Graça, filhas do doutor Almeida Prado. E nem atrevido como o afeminado Doquinha que inventara querer ser mulher, e se escondia atrás do nome da família para fazer estripulias na beira do marataoan à noite. Conhecera-a desde pequena no centro, sabia quem ela era. Moça de família. Mulher para casar. 


-Como poderia casar com o noivo Romeu pelo caminho?


Teria que se movimentar para obter uma posição na sociedade. Uma colocação melhor. Casar com mulher rica é bom, mas o homem ficara trouxa, um manicaca, como muitos na cidade, mandado por mulher. 


Assim, sim. Um trouxa nos falatórios das quitandas e pés de balcão da rua do brega. Perdia a vergonha na boca das raparigas. Afinal, moça de família havia de casar com moço de outra família, e rica de preferência, de nome, com casa de eira e beira. 


Mas, como poderia casar? Se nem profissão tinha? Não, não, não... Não tinha condições para estudar em Teresina. Família não tinha nome. Um parente que tinha mais condições, não se fazia do meio deles. Discriminados isso, sim. 


Parecia um estranho, um avarento que viveu nas cozinhas alheias, na cozinha de rico. Um boca podre que ruminava a riqueza dos outros e espalhava menino em uma e outra curica de fogão.


- Upa! Precisava ser sorteado na caderneta. Pronto, tinha uma ideia. Uma ideia brilhante e salvadora! Iria convidar o noivo para uma festa de despedida.


Com o amigo Aurélio, mataria o noivo antes da chegada dos convidados. Teria assim um tempo para contemplar o feito, o desaparecimento um mistério, e tanto uma espera forçada até todos sairem para as casas. Ruminou a ideia três dias... acabando por se abrir com o amigo Aurélio.


Lampião aceso capítulo 2


E quando no Casarão do centro seu Almeidinha acendia o lampião com suas mãos trêmulas. Podia-se apostar que era seis horas. Relógio na parede não errava. Não comia farinha. E dona Enedina com os terços nas mãos a dedilhar às seis horas a Ave Maria defronte ao altar da residência. Pouco metros da igreja de Nossa senhora da Conceição. Olhos acinzentado ao riscar o fósforo a acender uma vela. Ouvidos atentos ao marido na sala a acender o lampião. No altar, a alegria de ter em sua residência um dos vários objetos sacros surrupiado da igreja demolida.


Sacristão Almeida. Assim que gostava de ser chamado. Para os íntimos. Almeidinha. O homem que tocava o sino da igreja. Via na destruição da igreja, o maior ato de fé humana.


- Uma das torres acabaria caindo em cima do povo. Emendava ao olhar da janela que dava direto para a igreja.


E o Cristo em pó. E não salvaram nem a obra de maior idolatria do povo ao se despedaçar do alto da igreja. Enedina retrucava que fizeram o cálculo errado. Daqui uns dias, o cemitério era a próxima vítima. Cidade que crescia. Casas se multiplicavam e a espalhar aos tantos.


E corpos no meio do centro para que mesmo? Indagava a mulher. O bisavô de Almeidinha enterrado na entrada. Mausoléu dos mais lindos. Todo no ladrilho português vindo de Parnaíba pelo vapor até Porto dos Marruás. Gente importante. Gente de categoria. Também Ex major na Guerra do Paraguai.


- Onde Já se viu enterrar o homem de farda e com as medalhas de ouro. Bom mesmo desenterrar só pra gente retira-las. E assim a gente até saldava as dívidas no Comércio do Aurélio.


Enedina fazia o pelo sinal e encerrava a reza. Piqueiro de velas acesas para assim espiar seus pecados e dos seus. Dizia que Almeidinha a blasfemar. Parecia Ateu. De dentro da igreja e nunca rezava. Ninguém sabia em que acreditava.


- E o pó da carnaúba? Perguntava a esposa. O povo não quer pagar mais a renda dos carnaubais, não?


Almeidinha a sair rumo da casa paroquial soltava a língua.


- Gente miserável. Gente que não presta. Querem viver nas terras dos outros é de graça. Tudo gente tocado por outros de suas terras. Tangidos pelo mundo a viver a esmo. Gente errante. Parada deles. Barras.


Cadeira na porta do casarão da rua Coronel Correia e dona Enedina a espiar quem ia e vinha. Língua afiada para cortar a vida dos outros. Dos seus, não. Nunca. Esses eram sagrados como as escrituras. Nenhuma palavra. Uma repreensão. Os netos que furtavam as ofertas, tudo santo. Em dezembro se batizariam.


Entre caveiras e túmulos capítulo 3


Genésio precisava de uma saída para a confusão em que se metera. Gostava de Helena, gostava até demais, mas tinha o marido dela no meio dos dois. E que mulher mais virtuosa poderia encontrar na vida. Pensou em casar pela riqueza, mulher rica é muito bom, mas deixa o homem trouxa, idiota, um sandeu. Era bonita, cabelos longos e escuros, bem feita de corpo, mulher nova, inteligente, não era assanhada como dona Iaiá do seu Nonô da rua do fio. Conhecera Romeu no dia que a igreja de nossa senhora da Conceição era derrubada.


Os pais de Helena conhecia bem o velho moribundo que sempre andava com o moleque de recado, o João Barroso criado nas casas dos ricos. Genésio como ia sustentar a mulher? Casar sem o suficiente para sobreviver era igualar-se a Murilo Costa que ganhava a vida nos pés de balcão a falar mal do governo. Seria loucura. Se ao menos como coveiro ao desenterrar corpos na rua Leônidas Melo encontrasse ouro nos dentes dos defuntos mais abastados. Até procurava pelos sobrenomes nas lápides.


Teria que se movimentar rápido até os Carvalhos, os Castelo Branco até os Pires Ferreira. Mas para qual túmulo devia intensificar os trabalhos. Tudo tão difícil, tão negro o horizonte. Esquecer Helena... a crise, a crise! Era o fantasma de todos na prefeitura de Barras. Aí se lembrou do túmulo dos Silva, dos Sousa, dos Pereiras. Não encontrava nada. Indagava o local do novo campo santo no Pequizeiro.


Precisava ser sorteado em um tesouro. Tinha uma ideia. Uma ideia brilhante e salvadora! Matar o velho ou assentar praça no exército. Dividia as pessoas em especiais e convencionais. No exército teria um ano e na Ditadura seria autoridade com farda, patente e coturno. Como assassino, a amada.


Ruminou a ideia três dias, acabando por si abrir com a amante Helena....


Modernidade era a palavra da época capítulo 4


Era segunda feira, o carro do sol passeara em voltas pelo mundo e a grande sombra encobrira os propósitos de padre Lindolfo. Afinal, convencera toda comunidade para a fim derrubar a igreja matriz. Única recordação era o casamento de Helena com o avarento Romeu, caixeiro do Ceará que veio matar a fome no Piauí. Fez mal negócio doutor Fernandes Almeida com o casamento da filha. Helena casara de branco, véu e grinalda, uma virgem pura, pura até conhecer Genésio, o coveiro da Confraria.


Precisava casar ela era com o turco Ali Abby, era suvina, quando das ajudas para as festas religiosas de dezembro, mas judeu, turco, árabe era assim mesmo, onzeneiro não ia de se converter ao cristianismo. Falar em religião para ele era cláusula pétrea, desconversava. Era mão de bebê na venda da rua Grande. Abria de sol a sol e de domingo a domingo o negócio. E se queixava dos lucros das vendas dos cocos babaçu e couro dos bodes e carneiro que Romeu vendia para ele que eram baixos. Era a crise, crise. Ninguém vendia nada.


Padre Lindolfo decidira tudo na calada. Tinha ideias modernas, depois que retornaram de Roma e fizera estadia em Dusseldorf na Alemanha. Uma igreja de nossa senhora da Conceição moderna, moderna! Com a frente para o outro lado e não mais para o rio marataoan.


Moderna era a palavra que a pequena Barras de 1969 aprendera nas missas de domingo. Nos catecismo dos meninos, menos no batismo. Mas na primeira comunhão, na crisma, casamento e ia até a morte. Modernidade é progresso? Progresso, avanço! Padre Lindolfo cheio de erudição. E os 60 kilos de ouro de uma das torres da igreja? Perguntara Bernadete um das irmãs do sagrado coração de Maria. Uma solteirona que com a irmã Graça arrastava asas para o homem da batina. Indagada se ficaria para a diocese de Santo Antônio em Campo Maior ou até mesmo para custear a obra da nova igreja das Barras.


Muitas famílias tradicionais questionara o fato da derrubada. Porém, todas omissas, subservientes com a situação. Sim, todos de acordo, ninguém ousara ser herege cultural. Logo, padre Lindolfo era taxativo. Dividira um pedaço do templo em cada casa, um santo, uma relíquia qualquer quando beatificado obraria até milagres, sim, coisa santa. Ora, cada família abrigaria nas casas peças sacras.


Coroas de nossa senhora da Conceição toda no ouro, quando comprada na Itália para adornar nas festas da padroeira. Relicários, castiçais de prata, e demais peças santas da amada igreja. Preparara tudo com sua retórica apurada de fala mansa e arrastada. Não somos um povo que destruímos as coisas velhas pelas novas? Modernidade! Primeiro o cemitério da Confraria.


População dos mortos que não tem divergências de opinião! Voto vencido! Ali é democracia. Ricos e pobres debaixo de sete palmos. Os de famílias tinha que ser os primeiros no novo campo santo do Pequizeiro. Restos mortais dos que se foram. Com a cidade crescendo vai enfeiar o centro. Removera todos os corpos e levara para as bandas do Pequizeiro! Sim, para bem longe do centro. Quem reclamara era Genésio na labuta de todo dia desenterrar corpos. Primeiros os de nomes de família, depois os Sousa, os Silva, os Costas, os Pereira, os Rêgo, os Ferreira e etc.


E era um serviço sem fim. Um leva e traz de gente morta o dia todo. Uma juntada de ossadas. E dissera aqui esse aqui é da família Castelo Branco, aqui é Carvalho, aqui é Aguiar e e aqui é...desse ou daquele!


Genésio na labuta.


E era assim que contara ao amigo Aurélio. Aproveitaria que os corpos seriam removidos para o novo campo santo no Pequizeiro. E se alguém descobrir o feito? Não, não. Primeiro convidara Romeu para a despedida de solteiro no sobrado dobacharel Mota Machado na rua Grande. E assim, os dois fizeram. Não pensara no tamanho da loucura. Não podia mais voltar na decisão.


Afinal, Aurélio prometera no crime. Crime perfeito é uma arte. O dia docasamento era no domingo de páscoa, um dia antes da queda da igreja matriz. Genésio prepara tudo na sábado de aleluia. No domingo de páscoa pela madrugada levariam o corpo em meio aos outros do cemitério da Confraria de nossa senhora da Conceição.


Era noite. Estrelas corriam o céu no eterno carrossel do tempo. Romeu entrara pelos fundos da casa de doutor Mota Machado como combinara com Aurélio. Nenhuma testemunha no ambiente notívago da rua David Caldas.


Pensara se as duas solteironas, Bernadete e Graça topariam a orgia da festa dionisiana. Sala toda iluminada pelos candeeiros. Um grande baú com uma toalha. Os livros de doutor Mota Machado na cadeira de balanço. Pronto. O noivo de Helena morto. Um pânico tomou conta de Genésio. Aurélio o tranquilizara. Era preciso se acalmar ou tudo perdido. Deu um gole de cachaça para ele. Estava impaciente. Sudorese, tremor.


Um corpo ali na sala, dentro do baú. Aurélio dissera que deveria seguir a festa. Os dois asfixiaram Romeu com uma corda. Jazia morto. Antes que os convidados chegassem um a um, os dois jogara o corpo no baú. Enfeitaram com castiçais e as comidas. Dez minutos e a governanta dona Tânia trazia os pratos. Os primeiros convidados chegaram a casa. Eram as irmãs solteironas Bernadete e Graça. Chegara da preparação dos noivos e comentara pela falta de Romeu. E partiam para os doces sob o baú.


Helena na missa recebera as recomendações de padre Lindolfo sobre o casório. O noivo se atrasara. Não era de faltar compromisso firmado. E assim, chegavam os convidados para a festa. Genésio se movimentava de um lado ao outro. Aurélio muito tranquilo tomava licor calmamente. Dissera Genésio: No juízo final! Quero está na melhor igreja. Nem na dos crentes nem na dos católicos, mas na elite da salvação. Na melhor, sim, na melhor religião do mundo. Desde que ela não se rotule pelo bolso, nem pela cor, nem pelo sexo, nem pela ignorância bíblica.


Entre os eleitos que viverão no Paraíso ao lado de Deus. Padre Lindolfo fizera muito bem, derrubara a velha igreja para começar uma nova religião em Barras. Essa velha Barras, Barras velha que ensina que Cristo é Deus, é pai e é Espírito Santo, ou melhor, nos catecismo se ensina politeísmo, ou a trindade é monoteísmo? Não, não. Deus é único, Jesus é Jesus e o Espírito Santo é o Espírito Santo. Cada um no seu quadrado ou no seu pedestal. Genésio na velha igreja sentira-se pequeno, miúdo, indiferente ao olhar para os santos acima da cabeça. Deveria ser na linha dos olhos, não era os santos homens iguais a ele?


Sim, homens melhorados, abnegados das coisas materiais. Genésio não! Era ambicioso. Buscara pela riqueza. Cada corpo desenterrado era uma esperança. E falara aos seus botões... Tão rico, e não trouxera nada dentro desse caixão. Era orgulhoso, arrogante, prepotente com os mais pobres. O que levara na quando morreu? Só terra, pás de terra, um único minifúndio dividido com um Silva, um Sousa, um Ferreira ou um Rêgo. Era homem de família rica, mas até na cova dos menos favorecidos de posses tinha um crucifixo dentro. Do Juazeiro do padre Cícero, mas tinha! E Genésio continuar a desenterrar estórias e passados. Na próxima cova, estacara na lápide escrita. Era um imortal das letras. Imortal no nome. Egoísta e arrogante se achara o centro das atenções. E não era? Era, sim. Uma cabeça grande de pequenos pensamentos, brilhante no que escrevia.


E lembrara-se das poesias. Poesias não morrem. Poesias sim, são imortais. E se resolvera escrever? Entraria para academia de letras? Para a piauiense era impossível! Era a nata da elite. Um elefante entraria numa agulha do que entrar para o meio-dia homens das letras. E o pensamento em Helena. Nunca que a família aceitaria o casamento. Sabia que ela o amava. Casara com Romeu pelo interesse da família. Romeu era do Quixadá. Família não tinha nome na cidade. Era caixeiro rico. Negociava com o turco Ali Abby. Que com os negócios ruins partira para Floriano. Para o meio dos parentes turcos. Como dissera sempre em Barras Os sírios e libaneses! Sujeito de cara enorme, olhos miúdos e narigão que tomava o rosto comprido. Sem falara nas orelhas de abano. Romeu era viajante. Tinha orgulho de ser caixeiro. Só andava na beca. Roupas passadas pela finada Maria do lavado. Não será um caixão decente para ela. Pobre não tinha valor para rico. Dedicar à vida toda. Um encosto, um estorvo. Nem falta fizera. Helena que descera lágrimas. Seu Almeida Fernandes com as despesas.


Velório nem o dia, todo foi. Morrera como nascera. Pobre! Subserviente a todos e escrava da cozinha. Almeida Fernandes tivera chamego com ela. Tivera sim. Cidade comentara. Quem ousara reprovar? Padre Lindolfo? Era conivente. Não queria perder a ajuda para nova igreja.


Romeu era de fora, o cabeça chata! Sim, cabeça chata era o apelido que Aurélio botou nele. Encerrara o serviço na cova de dona Maria do lavado. E indagara com a solidão do momento. Os bons morrem cedo? Maria do lavado tão benevolente com os mais humildes se fora tão nova. Os dias eram monótonos. Cava, cava a cova no vácuo da alma subserviente ao humus, a terra. O cavador suspenso no ar fincara a terra seca do mês de outubro. Genésio olhara para os lados. Sentira medo. Alma penada ou outra coisa fantasmagórica.


Planejou tudo nos mínimos detalhes. Convidaria Romeu para a casa dos Almeidas Prado. O aniversário de Romeu aproximara. Os convites fariam um a um na casa Paroquial. Aurélio concordaria. Era só convencer que tudo ia dar certo. Matar é fácil, sair sem punição uma arte. Logo, o pensamento voltara a religião. E se abrisse uma igreja para ele? Alugaria uma casa na rua da tripa perto da construção da Caixa d'água feito pelo DNOCS. Sim, sim! Uma igreja, uma igreja de crente. Pensou em um salão para o candomblé, mas era o mesmo sincretismo católico, e mais não tinha os atabaques e nem pessoal para o trabalho religioso. Pronto! Uma igreja de crente poderia dar-lhe posição social e dinheiro.


Afinal, padre Lindolfo precisara de um concorrente para os fiéis que estavam sem missa, sem o alimento espiritual da religião. Não precisara ser formado. Entendia da bíblia. Onde arrumaria as cadeiras, o microfone, os fiéis ou os inconformados com os dogmas católicos. Não desistiu da ideia. Pura ideia. Desistira da loucura. Cavara mais, mais, mais uma ossada e outra, até batera na cova do Albertinho. Não entendera o que levara ele ao suicídio. Tirar a própria vida! Que motivos? Não tinha. Filho único. Fizera vestibular para bacharelado na Paraíba, depois no Recife, no Ceará. Não fora aprovado. Queria ser padre, não um rábula, um doutor. Não gostara da noiva que a família arrumara.


Albertinho não gostara de mulher. Quem não sabia disso? Barras toda! Barras toda! Os pais queria uma coisa, ele outra. Quem mais sofrera foi o primo, o Doquinha. Doquinha sim, perdera uma parte dele. Foi como se o coração perdera a função de bombar dentro dele Doquinha. Morrera tão novo. Morrera sem fazer o que queria. E voltara a ideia novamente. Matar Romeu na festa que faria para ele. Romeu morreria no dia do aniversário. Que brilhante! Convidaria os pais dele que viriam do Ceará para a semana santa, o ex namorado de Helena, o estudante Zé de Lauro, Helena e padre Lindolfo.


Não era padre Lindolfo que dissera nas missas de domingo o quinto mandamento: Não matarás. Não matarás. Haviam de sair sem punição da lei dos homens. E da lei de Deus? Lei de Deus ou lei da consciência ou lei de Freud! E se desse a lei de Murphy? Não daria! Não. Tinha tudo planejado na mente. O bolo do aniversário, o corpo de Romeu. O baú, o caixão, os convidados. Quando todos fossem embora, o enterro no novo campo santo do Pequizeiro em meio às ossadas do cemitério da Confraria de nossa senhora da Conceição. Cavara e remoía a ideia. Fincara o cavador no chão duro. Fincara a ideia na mente. Passara o dia todo a imaginar. Imaginava demais. Ia a Campo Maior tirar a caderneta. O carro da paróquia sairia cedo.


 

 

FONTE: PVPI

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