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Educação

23/04/2018 ás 15h54 - atualizada em 23/04/2018 ás 16h05

Direto da Redação

Barras / PI

Piauí lidera em suspeitas de fraudes no Enem, aponta levantamento da Folha
Muitos teresinenses viajaram para Picos, no Sudeste piauiense com 77 mil habitantes, onde apresenta a maior concentração de provas com suspeitas de fraudes
Piauí lidera em suspeitas de fraudes no Enem, aponta levantamento da Folha

Pelo menos 23 casos de fraudes piauienses no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foram identificados pela Folha de São Paulo, entre os anos de 2011 e 2016. Com esses dados, o Piauí lidera entre os estados com mais resultados suspeitos. Na cidade de Picos, a 310 km de Teresina, foram detectados 11 casos, referentes ao ano de 2016. A reportagem especial foi divulgada na manhã desta segunda-feira (23/04).


 

Após Picos, vem Teresina, com nove casos, também com dados referentes a 2016. Em 2015, em Patos do Piauí, a mais de 400 km da capital, foram identificados três exames possivelmente fraudados. De acordo com o estudo desenvolvido pela Folha, é estatisticamente improvável que não tenha ocorrido algum tipo de cola nesses casos, tendo um universo de 3 milhões de avaliações analisadas, sendo 1.125 identificadas como muito semelhantes.


Assim, seria necessário repetir o exame mil vezes para que duas provas, sem interferência, fossem tão parecidas como os gabaritos suspeitos. Isso implica dizer que é preciso aplicar o Enem 35 mil vezes para que provas semelhantes possam se repetir.  Investigações conjuntas do Inep (órgão federal responsável pelo Enem) e da Polícia Federal (PF) confirmaram, até hoje, apenas 14 casos de fraude. A gestão Michel Temer diz que usa estatística e outros meios para combater as colas.


PIAUIENSE NEGA FRAUDE


A Folha teve como base os microdados do Enem, disponibilizados pelo Inep. O sistema não fornece a identificação dos suspeitos, mas o piauiense Justimar Leal Teixeira foi identificado como um dos candidatos com provas suspeitas. Ele é natural de Patos do Piauí e se diz advogado e militar, funções que o impediram de continuar o curso de Biomedicina na Universidade Federal do Pernambuco (Ufpe), quando aprovado em 2015, após fazer o exame em 2015.


O padrão das respostas de Teixeira foi muito parecido com outras 24 provas. Para encontrar conjunto de exames tão semelhantes ao acaso, seria necessário aplicar uma edição do Enem por ano desde a criação do universo (há 14 bilhões de anos). Em relação a dez dessas provas suspeitas, o gabarito dele diverge em apenas 5 das 175 questões analisadas, incluindo mais de 30 respostas erradas na mesma alternativa. Se a semelhança fosse apenas ao acaso, o modelo indica que deveria haver ao menos 39 questões divergentes.


O aluno piauiense, único entrevistado pela Folha, nega que tenha participado de alguma fraude e diz que há probabilidade de haver provas iguais, já que milhões de pessoas participam do concurso. O veículo de comunicação, por outro lado, contesta: “Mas os gabaritos considerados suspeitos são tão semelhantes que é improvável que seja apenas obra do acaso”, rebateu o posicionamento de Teixeira.


PICOS É DESTAQUE


O grupo com maior número de candidatos suspeitos foi identificado em 2016, tendo Picos como a líder no ranking, levando em conta a proporcionalidade populacional. A cidade piauiense tem somente 77 mil habitantes e apresenta 11 casos, diferente do Rio de Janeiro, cuja demografia está em mais de 6,4 milhões, onde foram encontrados 12 provas possivelmente fraudadas.


Dos 11 casos picoenses, oito desses candidatos viajaram para o município para fazer o exame, sendo quatro de Teresina (trajeto que leva mais de quatro horas de carro). Duas provas de pessoas que saíram da capital para Picos tiveram 115 questões certas idênticas, 48 erradas (na mesma alternativa) e apenas 12 divergentes.


Simulação com provas aleatórias, com desempenho parecido a esse grupo, indica que deveria haver ao menos 62 distintas. Os dois exames suspeitos foram feitos por homens com 34 e 29 anos, à época. Não foi possível identificar seus nomes. Delegado regional da Polícia Civil em Picos, Jonatas Brasil disse que não recebeu notícia envolvendo fraude no Enem.


CIDADES COM MAIS CASOS SUSPEITOS EM 2016


Rio de Janeiro (RJ): 12


Montes Claros (MG): 12


Picos (PI): 11


Teresina (PI): 09


Mossoró (RN): 08


Belém (PA): 0


Fortaleza (CE): 07


Recife (PE): 06


São Paulo (SP): 06


Brejo Santo (CE): 06


Goiânia (GO): 06


João Pessoa (PB): 05


METODOLOGIA DA FOLHA


O estudo da Folha identificou tanto duplas de provas suspeitas, o que indica algum tipo de cola rudimentar, quanto grupos com até 67 candidatos suspeitos, apontando para um esquema mais sofisticado de transmissão de respostas.


A pesquisa considera apenas candidatos que ficaram entre as 10% melhores notas, entre as edições 2011 e 2016, o que representa um montante total de 3 milhões de provas analisadas. Com essa pontuação, o candidato consegue ingressar em cursos concorridos como Medicina, Direito ou Administração.


O Enem cobra 180 questões dos candidatos, com cinco alternativas cada. O levantamento da Folha calculou a probabilidade de duas ou mais provas terem o mesmo padrão de acertos e de erros. Foram descartadas cinco questões de língua estrangeira, pois os estudantes podem ter padrões diferentes de respostas (eles optam entre inglês e espanhol).


Foi considerado como altamente suspeito, por exemplo, candidatos que erraram questões marcando a mesma alternativa errada (podiam ter errado escolhendo outras três opções também incorretas).


Outro ponto considerado foi a probabilidade de esses estudantes de alto rendimento errarem questões de dificuldade média ou fácil. Se eles falham nessas perguntas, fica mais improvável que as semelhanças entre as respostas sejam ao acaso, pois espera-se que eles acertem essas questões.


INEP DIZ COMBATER FRAUDES


Braço do Ministério da Educação (MEC), responsável pelo Enem, o Inep afirmou que trabalha com a Polícia Federal para coibir fraudes, garantindo a “isonomia entre os participantes”. O instituto disse que também faz análises estatísticas para combater as colas.


Quando há suspeitas, os casos são encaminhados à PF, para que prossigam as investigações, pois “o edital do Enem não prevê a eliminação do participante [apenas] por resultados coincidentes”. A nota oficial não informou quantos casos foram apontados pelo instituto à polícia.


O Inep afirmou apenas que os casos de fraudes já completamente confirmados pela Polícia Federal “são pontuais”: 14 no total, sendo um candidato em 2013 identificado em Minas Gerais, e 13 identificados pela equipe no Maranhão (3 casos em 2015 e 10 em 2016).


“Esses casos não comprometeram a lisura do exame, a partir da afirmação dos próprios delegados responsáveis pela condução dos inquéritos de que a exclusão dos participantes seria providência suficiente, o que já foi adotado pelo Inep”, disse o instituto.


O órgão afirma que tem aprimorado os sistemas de segurança na prova, como a adoção em 2016 de detectores de metais nos locais de prova e identificação biométrica. E, no ano passado, com detectores de ponto eletrônico.


“Há outros inquéritos policiais em curso. Caso haja indicação de fraude devidamente formalizada pela autoridade policial, os participantes envolvidos serão eliminados do Enem, sem prejuízo de outras providências”, completou o órgão.


Fonte: Folha de São Paulo

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